A bossa nova dos quadrinhos brasileiros

 

Os quadrinhos brasileiros cruzaram oceanos. Marcelo D’Salete, Helô D’Angelo e André Diniz são alguns dos artistas nacionais homenageados no Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora, que até a próxima segunda-feira (11) traz uma exposição inteira dedicada também a nomes como André Ducci, João Marcos, João Pinheiro + Sirlene Barbosa, João Spacca, Klévisson Viana, Marcello Quintanilha e Pedro Cobiaco.

O diretor do festival, o português Nelson Dona, chegou aos homenageados a partir de critérios como qualidade estética e vanguardismo. "A imagem que a Europa tinha do Brasil era de que ele vivia, do ponto de vista dos quadrinhos, muito subjugado ao universo dos super-heróis e dos comics americanos, trabalhando inclusive com grande qualidade em equipes americanas", explica o diretor, que contou com a produção de Aécio Diniz e Fabiana Barbosa, da Fundação Casa Grande, instituição brasileira localizada no sul do Ceará.

 

Nelson Dona, diretor do Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora

 

Hoje, essa visão é diferente. Quadrinistas atuais "falam de assuntos brasileiros de forma muito contundente, com temas estruturantes da sociedade brasileira, de heróis e de pessoas normais. Usam técnicas narrativa e gráfica que têm como principais referências a arte brasileira e um universo que tem o Brasil como inspiração. Escolhemos artistas contemporâneos e que trabalhem temas com histórias do Brasil de hoje, ou histórias do Brasil de ontem que nos ajudem a perceber a realidade de hoje."

Em meio a tanta homogeneidade no mercado de quadrinhos, as produções nacionais acabaram percebidas no exterior como vanguarda. "Pensamos que os quadrinistas brasileiros estavam a viver aquilo que viveu a bossa nova, ou quando os modernistas brasileiros criaram o Manifesto Antropofágico e o Brasil assumiu informações do mundo inteiro e assumia suas influências internas", explica. Acredita que, com apoio público e da sociedade, as HQs produzidas por aqui possam facilmente transformar-se em referência.

 

 

Mas a presença brasileira no festival não é de hoje. Há anos que cada vez mais artistas daqui têm visitado o evento, procurando fazer lançamentos de livros ou apresentá-los a editores portugueses. Começaram a perceber uma qualidade e a vanguarda estética muito forte nessas publicações, e decidiram, então, conceder um espaço permanente para as criações brasileiras, até como porta de entrada para o mercado europeu. O diretor acredita que todos os artistas selecionados têm a qualidade necessária para serem publicados em outros países.

Dessa forma, homenageia-se não só o Brasil, mas a língua portuguesa como um todo, em todas as suas possíveis variações. "Se não existisse o Brasil, a língua portuguesa não tinha a importância no mundo e, portanto, a homenagem ao Brasil é também uma homenagem à língua portuguesa e à forma como a língua portuguesa é tão bem tratada pelo Brasil e unifica o Brasil", defende.

Ele também considera o país um "espelho do resto do mundo" em relação à política. "As coisas são muito mais claras no Brasil, mas aquilo que se está a passar politicamente no país se está a passar no mundo inteiro, e, portanto, refletir o Brasil é refletir também o resto do mundo. Os quadrinhos que nós escolhemos fazem essa reflexão."

 

 

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Anote na agenda

Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora

Quando: até 11/11, das 9h às 17h

Onde: Fórum Luís de Camões

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