A aula de Marjane Satrapi em Persépolis

 

A artista gráfica iraniana Marjane Satrapi, autora da HQ autobiográfica Persépolis, lançou os quadrinhos em francês por uma pequena editora independente, em quatro partes, entre 2000 e 2003, como forma de ilustrar a realidade de seu país e de sua cultura às pessoas com as quais convivia na Europa. Publicada no Brasil pela Companhia das Letras, a obra mistura com maestria fatos históricos, reflexões sociológicas e dilemas da adolescência da protagonista a partir de uma perspectiva acessível, cheia de possibilidades didáticas para a sala de aula.

Marjane era apenas uma criança quando a Revolução Islâmica derrubou o Xá Reza Pahlavi, então governante do Irã, em 1979. Bisneta do antigo rei da Pérsia, ela cresceu em uma família progressista e ocidentalizada, que a colocou numa escola francesa e laica. Com a chegada dos xiitas ao poder, as meninas foram obrigadas a usar o véu na escola e a estudar em classes separadas dos meninos. Aos 14, foi enviada pelos pais para a Áustria, onde descobriu um mundo diferente do seu e enfrentou inúmeras dificuldades de adaptação – especialmente para uma adolescente. Seus amigos namoravam, usavam drogas, iam para festas, cultuavam o punk, e Marjane, de repente, se viu lidando com uma liberdade em muitos momentos contraditória e com a qual não estava acostumada.

Ao transitar entre o Oriente e o Ocidente, ela utiliza o humor para recriar seu passado artisticamente, ironiza a tradição inventada em seu país e a si mesma – inclusive ao narrar o momento em que passou a morar na rua, com um tom agridoce que aproxima o leitor da personagem e o Irã da nossa realidade. Não à toa, a artista venceu o Prêmio Revelação do Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême, considerada a premiação francesa mais importante do gênero. E sua história não se limitou às páginas impressas: em 2008, Persépolis também ganhou uma animação dirigida pela autora em conjunto com Vincent Paronnaud. O longa-metragem de animação concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e a Palma de Ouro no Festival de Cannes, no qual levou o Prêmio do Júri. Na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, venceu o Prêmio da audiência como Melhor Filme Estrangeiro, o que revela o sucesso e a amplitude dessa história.

 

Persépolis nas escolas

A obra chegou a ser confiscada em escolas públicas nos Estados Unidos e teve a exibição de seu filme censurada no Líbano. Os motivos, inclusive, podem ser entendidos através da leitura do próprio quadrinho: com a devida mediação da leitura, o mesmo jovem tido como parte de um mercado consumidor pode se tornar agente social capaz de refletir os assuntos abordados, uma transformação que passa pela escola, defendida pela autora na HQ.

Ao trabalhar com obras literárias e quadrinísticas em sala de aula, há uma aproximação com um grupo potencial de jovens não leitores, incentivando o hábito da leitura e a produção escrita, além da desenvoltura da oralidade e a alfabetização da linguagem própria dos quadrinhos. Soma-se a esses efeitos os resultados conhecidos da prática literária, como a identificação e a construção de noções identitárias, a ampliação de horizontes, o desenvolvimento de um olhar crítico sobre aspectos linguísticos, históricos, comunicacionais e sociológicos.

Para Heloisa Moreira e Silvia Catunda, professoras do ensino fundamental que realizaram um projeto interdisciplinar com a obra em turmas do 7º ano, foi uma experiência positiva: “Os alunos envolveram-se com o trabalho, descobriram um país, uma cultura, uma religião. Perceberam a riqueza de informações que têm nas mãos, saíram transformados e mais maduros para vivenciarem novas leituras. Ou seja, Persépolis propicia tudo o que se espera da literatura: a arte de conhecer o outro para que possamos conhecer melhor a nós mesmos”. O relato está disponível na íntegra na publicação Novas Leituras, da Companhia das Letras.

 

 

Identidade persa e o Islã

Um dos conflitos ilustrados em Persépolis é sobre ser persa em uma realidade islâmica. Com a queda do império Sassânida, a última dinastia persa pré-islâmica, a assimilação da religiosidade islâmica pelos persas se deu de maneira peculiar, tendo a mescla cultural e a afirmação das tradições persas como marca no Irã. A autora faz uma defesa de um povo com suas histórias e particularidades. Ainda que com ressalvas, ela promove uma discussão que gera ricas reflexões sobre a atual República Islâmica, de fundamento xiita. Nesse debate, por exemplo, ela reivindica a identidade persa num contexto cultural islâmico em que as leituras religiosas são feitas em Árabe e há conflitos entre os diferentes grupos étnicos e religiosos.

 

Revolução Islâmica

Quando a Revolução Islâmica/Iraniana, comandada pelo Aiatolá Khomeini obteve sucesso em sua empreitada e derrubou o Xá Reza Pahlavi, a protagonista ainda está formando suas primeiras opiniões políticas, e olha com desconfiança para os resultados da consulta popular que permitiu instaurar no país a República Islâmica, autoritária e antiliberal. Na sequência, estoura a guerra contra o Iraque. Soma-se à tensão militar o medo instaurado pelo Estado em nome da religião, que passou a exercer controle severo às vidas social e pessoal dos iranianos, e fez com que Marjane saísse do Irã.

Durante essa trajetória, assistimos a alguns dos momentos políticos, econômicos e culturais que atravessam a história iraniana. Assim, os professores de História e Geografia podem facilmente criar pontes entre acontecimentos históricos tratados na obra, como a conquista árabe e a guerra contra o Iraque, e fatos mais contemporâneos, como a ocidentalização do país e a Primavera Árabe, que evoca discussões semelhantes à da Revolução Iraniana.

 

Contexto geopolítico atual

A importância do estudo dessa Revolução serve também para se debater a situação atual do país, que continua sendo uma República Islâmica controlada pelos xiitas islâmicos e permanece representando uma peça importante no xadrez geopolítico do Oriente Médio. A leitura do livro possibilita ainda entender os motivos que levaram o Estado Iraniano a se opor aos EUA e ser, nos dias atuais, alvo de sanções econômicas, principalmente após o desenvolvimento de um projeto nuclear, além de ser um dos pontos críticos da questão do petróleo.

 

Formas de governo, laicidade do Estado e as liberdades individuais

Em Persépolis, percebe-se que a identidade nacional está passando por mudanças. Governado pelo Xá Reza Pahlevi, o Irã era uma monarquia com grande afinidade com o Ocidente, mas que recebia críticas pelo modo autoritário como conduzia o país e planejava a economia. Em 1979, com a Revolução Islâmica, o governo passa a ter bases nos preceitos religiosos, o que transformou a República recém criada em um verdadeiro Estado teocrático, com forte influência de clérigos não-eleitos, além de estabelecer novas doutrinas para os iranianos, impactando diretamente na vida cotidiana da protagonista.

Para combater esse governo, ocorre uma mobilização por parte da população. Há desde uma organização política revolucionária até ações menores e isoladas de resistência, como fazer festas misturando homens e mulheres, ouvir punk, ter bebidas alcoólicas em casa, entre outros exemplos vividos por Marjane. A partir desses episódios da obra, pode-se discutir como cada uma dessas formas de governo entendem as liberdades individuais e quais as formas de resistência dos indivíduos frente às tentativas de controle estatal.

 

O refugiado

De volta ao Irã aos 18 anos, após um período de estudos na Áustria, o conflito identitário da protagonista é latente: se Marjane sempre carregou o status de imigrante terceiro-mundista na Europa, em sua terra natal já não se sente igual aos conterrâneos por ter adquirido hábitos ocidentais. A dificuldade de adaptação e as marcas que a guerra deixou nos iranianos, mesmo naqueles que “fugiram” dela, alimentam a sensação de não pertencimento e de busca constante da personagem.

Ao relatar a história da sua vida, a autora promove um discurso que contesta a imposição de hábitos que não condiziam com a sua ideologia, ao mesmo tempo em que reproduzir valores e discursos provenientes de sua criação enquanto iraniana e muçulmana, encontrando-se na linha limítrofe entre discursos ocidentais e orientais sem encampar completamente nenhum deles. Em certo momento, a personagem encontra outros indivíduos que imigraram ou que estudaram sobre sua cultura, com os quais se identifica e se aproxima.

 

Liberdade e papel das mulheres na sociedade

A utilização do véu pelas mulheres, os novos conteúdos ensinados nas escolas, a divisão entre gêneros e o papel social da mulher iraniana num regime xiita, que possui mais ou menos direitos a depender do seu status civil e da sua virgindade: o tom questionador da obra se dá fundamentalmente por ser uma mulher que viveu esses exemplos e os escreve. A primeira reflexão sobre gênero, para a autora, acontece ainda criança, com a ausência de mulheres profetas e seu desejo infantil de ser a primeira. A religião continua sendo um ponto com seu uso pós-Revolução que, alinhado a um governo formado por homens, justifica as medidas repressivas sobre a mulher. No entanto, mesmo vivendo em outros países, a artista ainda nota as mudanças que o seu crescimento enquanto mulher lhe trouxe e as obrigatoriedades ou expectativas que lhe são impostas – seja a pouca liberdade sexual no Irã, seja a necessidade de se depilar na Europa.

 

Gênero autobiográfico

Marjane Satrapi pertence à mesma linhagem de Anne Frank e Zlata Filipović – meninas que cresceram em países cujo momento político moldou suas vidas. Anne Frank tornou-se famosa por escrever em seu diário os horrores da perseguição aos judeus na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial. Zlata lançou um livro contendo quatro anos de registros sobre seu cotidiano em Sarajevo. Se as três se alinham pelo relato em primeira pessoa, em Persépolis, Marjane escreve a partir de uma posição de afastamento temporal e espacial dessa história: há anos vivendo na França, Satrapi procura criar nos quadrinhos suas impressões e sentimentos enquanto criança que narra um Irã passado e seus conflitos.

Há, então, duas Marjanes na obra: a personagem jovem que se expressa em discurso direto, dentro dos típicos balões; e a outra, adulta, que narra a história em discurso indireto, dentro de letreiros. Assim, torna-se evidente o trabalho de recriação artística da memória, sendo um elemento interessante para analisar o gênero autobiográfico, e como ele é construído nessa obra. Quais são os episódios que Marjane escolhe contar? Como é feita a alternância entre as vozes infantil, adolescente e adulta? Apresentam a mesma perspectiva sobre os fatos? Como está pensada a relação entre as histórias política, social e individual da autora?

 

Linguagem em quadrinhos

A autora também se alinha com outros artistas de quadrinhos ao optar por relatar testemunhos de guerra, violência e opressão desse modo autobiográfico e participante na narrativa: Art Spiegelman, autor de Maus, e Joe Sacco, autor de Notas sobre Gaza. Porém, diferentemente de Joe e Spiegelman, temos uma autora que viveu o conflito, sem precisar buscar outros testemunhos.

Em entrevista, a autora explica sua escolha pela tinta preta para a produção da HQ. Segundo a artista, que pontua ser nas HQs a informação visual tão importante quanto a escrita, a opção pelo preto visou o minimalismo como forma de facilitar o ritmo de leitura de uma narrativa cheia de detalhes. Nela, o leitor tem a impressão de que aquelas cenas emergem de uma memória afetiva, abordada em sua essência, e não detalhada e realista como nos quadrinhos de super-heróis.

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Para incentivar a leitura desse gênero, o Blog da Letrinhas elaborou uma lista com dez histórias em quadrinhos imperdíveis para a sala de aula, além de contar um pouco mais sobre o universo das HQs e seu uso na escola. Você pode ler o post completo aqui.

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A checagem de informações deste post contou com apoio do professor Gianpaolo Dorigo, bacharel e licenciado em História pela FFLCH/USP, mestre em Filosofia pela PUC/SP, professor de Ensino Médio e Pré-vestibular no Anglo-São Paulo, autor de livros didáticos de História e Filosofia pelas editoras Scipione e Anglo.

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