A Susi é minha!

 

Por Blandina Franco

Falar de quando eu era criança é quase como falar de outra civilização, outro planeta, outras histórias.

Quando eu era criança, fazia comidinha em fogões de tijolos empilhados no chão do quintal! Eu brincava de pega-pega em cima de árvores. Na porta da escola, além de pipoca, tinha puxa-puxa e raspadinha! Quando eu era criança, não existia internet, nem tablet nem email. Quando eu era criança, não existia canal pra criança na televisão. E a televisão que existia não era para a criança assistir o dia todo. Quando eu era criança, não existia Barbie ou bonecas mundialmente desejadas.

Eu me sinto pré-histórica agora!

Mas (preste atenção: todo “mas”, em toda história, é uma coisa importante porque pode ser aquilo que vai te fazer feliz), quando eu era criança, existia a Susi!

 

 

Não sei se você conseguiu reparar na minha foto, que não tenho a menor ideia quem a tirou nem onde foi tirada, mas a Susi que está no meu colo é minha! Disso eu me lembro bem, e o resto também não importa nessa história. Eu tinha uma Susi, e ela era minha. E eu amava aquela boneca.

E quando eu era criança, além da Susi, eu tinha a minha mãe, que costurava roupas maravilhosas para a minha boneca na mesma máquina de costura em que ela fazia vestidos. Uma vez ela costurou pra mim um vestido que tinha uma bola furada nas laterais, um círculo vazado, que eu nem sei explicar muito bem como era. Talvez só quem saiba entender essa moda dos anos 70 seja a cantora Wanderléa.

Em um Natal, eu e minha irmã ganhamos uma casa para as nossas Susis morarem e serem felizes. Nossas Susis eram irmãs também, como nós duas, e a casa era para as duas dividirem. Acho que tinha alguma mensagem da minha mãe pra nós duas nessa coisa de dividir a casa... Mas agora não vou sair da história que estou contando só por causa disso.

A casa era, de acordo com a escala de tamanho da minha memória, maior do que o meu quarto, o que era mágico, já que ela ficava guardada dentro de um armário de brinquedos que ficava dentro do meu quarto.

Era uma caixa de madeira branca que abria um dos lados pelo meio, formando uma letra “u”. Ela tinha um quarto com armário e cabides. E em cada um dos cabides, tinha um vestido que minha mãe costurou para as nossas bonecas. Tinha uma cozinha com fogãozinho. Tinha uma sala com sofá. E, maravilha das maravilhas, tinha perucas para a minha Susi!

Depois de um tempo, a casa da Susi foi morar no porão da nossa casa. Mas não pense você que isso foi um rebaixamento para a Susi.

O porão da nossa casa era o lugar onde eu, minha irmã e meu irmão podíamos fazer tudo aquilo que a gente não podia fazer dentro de casa, tipo rabiscar paredes com canetinhas coloridas, enfiar nossas mãos em latas de tinta pra depois deixar nossas mãos impressas na parede, ouvir músicas no último volume e bagunçar tudo. O porão era tipo um território cercado por arame farpado onde os adultos não mandavam e todas as besteiras que as crianças fazem e imaginam podem viver livres e soltas.

Uma vez por ano, minha mãe pegava uma lata de tinta branca e todo mundo tinha que pintar as paredes do porão de branco pra ele ficar limpinho e pronto pra gente soltar as nossas ideias de jerico lá dentro. Até hoje, se eu fechar meus olhos, consigo ver minha mão pintada naquela parede em um monte de cores diferentes. Mas não tenho fotos disso.

Só tenho foto da minha Susi! E esse porão virou depois escritório do meu pai e o lugar que, de acordo com a escala de tamanhos da minha memória, é maior do que a casa da Susi, tanto em espaço quanto em histórias. Mas isso já seria um livro, e livros não cabem aqui.

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Blandina Franco, em parceria com o ilustrador José Carlos Lollo, é autora de Quem soltou o Pum? (2010), Grande pequeno (2011), O coiso estranho (2014) e Ernesto (2016), entre outros.

 

 

 

 

 

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