A Grécia pelo olhar de Monteiro Lobato

 

Publicado pela primeira vez em 1939, O Minotauro é uma grande aventura do Sítio do Picapau Amarelo, em que a turma visita a Grécia antiga viajando pelo tempo com a missão de resgatar Tia Nastácia do terrível Minotauro! Neste ano, as peripécias dos netos de Dona Benta voltam repaginadas numa edição especial da Companhia das Letrinhas, com ilustrações de Lole. Ainda hoje, O Minotauro ajuda a construir no imaginário de seus leitores o que seria o mundo grego.

 

 

Quem destrinchou as obras, cartas e relatos do autor em busca dessa resposta foi Raquel Endalécio, mestre em Estudos Brasileiros pela USP. Em sua dissertação, A (re)construção do mundo clássico na obra de Monteiro Lobato: fontes e procedimentos, a pesquisadora se propôs a estudar a presença da Grécia clássica e mitológica na obra do escritor, buscando verificar como as referências ao mundo helênico se impuseram em diversos momentos de sua produção literária, jornalística e memorialística. Para isso, a psquisadora recuperou títulos de livros de sua biblioteca particular, atualmente dispersa, suas correspondências e outros documentos. O estudo apresenta também uma “seleta” de trechos de livros de Lobato que narram aspectos históricos, linguísticos e culturais do mundo grego.

Ainda na graduação em Letras na Universidade Presbiteriana Mackenzie, Raquel participava de um grupo de pesquisa sobre a obra do autor, com orientação de Marisa Lajolo, especialista na obra lobatiana. “Tendo lido O Minotauro, fiquei pensando, como teria sido possível um homem conhecer tanta coisa, com riqueza de detalhes, de uma época tão longínqua? Assim surgiu minha primeira questão: ‘De que fontes se valeu Lobato para a reconstrução do mundo clássico?’”, comenta no texto. Essa indagação rendeu diversos estudos até chegar a seu mestrado.

A pesquisadora conta que o contato de Lobato com a cultura clássica, em especial a grega, começou cedo. Aos 16 anos, em carta à mãe, relata a participação no debate escolar sobre “qual o maior guerreiro Carlos Magno ou César”: “Agora, já não sou mais bobo como dantes, já faço discursos e até poesia! Vou defender tese no sábado: Qual o maior guerreiro Carlos Magno ou César?”, diz o autor na epístola. Ao que parece, esses primeiros contatos ocorreram durante as aulas de latim de Lobato ainda na juventude: “Lembremos que no início do século XX, época em que Lobato estudava, a presença da cultura grego-latina era forte, incorporada por autores de grande repercussão no meio literário, como o ‘último heleno’ Coelho Neto”, explica Raquel, citando como exemplo o escritor carioca reconhecido por Machado de Assis como um “dos nossos primeiros romancistas”.

Nos livros didáticos, de acordo com Lobato, era comum a apresentação de exemplos de heróis gregos. Em carta ao amigo Godofredo Rangel, em 1904, Monteiro Lobato refere-se a uma correção feita ao título de um poema em francês com exemplos que encontrava nas obras escolares de língua francesa, entre elas, a história de Ulisses. Mas suas leituras não se limitavam ao colégio. Em 1908, recém-formado pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco, o então jovem promotor público escreve ao mesmo amigo contando que tinha começado a ler Homero. Na carta, revela que estivera no Rio de Janeiro, cidade que considerava “contra-Grécia”, pois o “mulatismo” causaria no físico e no moral “uma feiúra”. Trata-se de longa exposição ideológica, em que deixa suas impressões sobre a Ilíada e a Odisseia de Homero, apontando a herança dessa literatura no cotidiano do Brasil no início do século XX.

Essas referências o acompanharam em diversas fases da vida. Emoções e afetos como agressividade, amores platônicos e sexualidade são compartilhados em outras correspondências por meio de símbolos da mitologia grega. Pela pesquisa de Raquel Endalécio, encontramos uma Grécia que serve a Lobato de parâmetro e vai moldando as percepções do escritor, não apenas social, mas também comportamental. Hércules, uma das figuras mitológicas de maior destaque em sua obra, é apresentado em carta pelo jovem Lobato aos seus vinte anos como “fascinante de vibração, de fogo, de selvageria”. Mais tarde, em 1947, no seu livro Os Doze Trabalhos de Hércules, o herói é caracterizado como um “bruto”, que, ao final de suas façanhas, reconhece que “a educação é que faz as criaturas”.

É sabida também a dedicação do autor no mercado editorial brasileiro de títulos clássicos traduzidos para o português. No papel de tradutor, Monteiro Lobato trouxe, pela Editora Companhia Nacional, entre outras obras, a História da literatura mundial, de John Macy, e a coleção História das civilizações, de Will Durant. Desse modo, não apenas o conhecimento de fundo em literatura clássica e suas civilizações, como também a prática de muitas leituras e traduções: tudo refletiu na produção de sua obra adulta e infantil. Lobato, em 1933, descreve a Grécia, a guerra de Troia e Homero no seu livro História do mundo para as crianças

E do mesmo modo que o autor ensina as crianças, Dona Benta o faz com seus netos no universo do Sítio do Picapau Amarelo: nas histórias, a avó traduz oralmente narrativas clássicas para Narizinho, Pedrinho e toda a turma, dando grande destaque ao mundo grego, referindo-se à mitologia, à Idade de Ouro (o chamado século de Péricles) e ao governo do “Grande Alexandre”. Em O Picapau Amarelo, em 1939, Lobato bota personagens do mundo grego junto dos moradores do Sítio, de tal maneira que ao se conhecerem, acabam também por se apresentar aos leitores. Nessa mesma obra, ainda traz uma espécie de spoiler para o leitor, noticiando o próximo livro da série infantil que teria por cenário a Grécia:

“– Pois bem – declarou Dona Benta. Nossa próxima viagem de aventuras será pela Grécia – e dará um livro:

– Que lindo livro vai ser! – exclamou Emília. VIAGEM DO SÍTIO PELO OCEANO DA IMAGINAÇÃO GREGA.

– Comprido demais, Emília. Os títulos devem ser curtos, senão ninguém decora. Veja: OS LUSÍADAS, A ILÍADA, A ODISSEIA, O INFERNO, A ENEIDA...”

O livro seguinte foi justamente O Minotauro e, com toda essa preparação, a publicação da edição original (feita em 1939) foi um sucesso, como a carta da pequena Edite, leitora de Lobato, demonstra: “Meu caro amigo Sr. Monteiro Lobato. Escrevo-lhe para felicitá-lo por seu novo livro: ‘O Minotauro’. Apesar de não haver lido ‘O Picapau Amarelo’, gostei tanto da viagem feita pela Grécia Antiga, que queria qualificá-la em uma só palavra: MARAVILHOSA!!!”

 

 

“É notável o conhecimento que Monteiro Lobato acumulou sobre a Grécia, sem nunca ter chegado a visitar as suas ruínas”, aponta a pesquisadora em sua dissertação. De acordo com Raquel, o autor interessou-se por períodos da história helênica: o mitológico, em que figuram os deuses e semideuses da Antiguidade, e o de Péricles, por volta de V a.C., em que se desenvolvem a arquitetura e as grandes construções gregas, conhecido como o século de Partenon. Lobato expressa em várias obras seu gosto pela figura e o governo de Péricles, usando a voz de seus personagens, como comenta a especialista, que escreve: “Se a Grécia lhe serviu tantas vezes de parâmetro estético e referencial de cultura, Monteiro Lobato decidiu recriar em sua obra esse mundo, construído de diversas maneiras”. Para comprovar essa fala, ela cita a seguinte passagem de O Minotauro:

“– Que coisa gostosa viver na Grécia daquele tempo! – exclamou Pedrinho com suspiro de nostalgia.

– Sim, meus filhos. A vida lá era um prazer – era o prazer dessa liberdade que vocês gozam no sítio. O prazer de sonhar e criar a verdade e a beleza. Nunca houve no mundo tão intensa produção de beleza como na Grécia – e o que ainda há de beleza no mundo moderno é pálida herança da vida de lá.

– Viva o sítio do Picapau Amarelo da antiguidade – berrou Emília – e as ondas do mar, como um eco repetiram: Viva! Viva!”

A dita “seleta” de trechos da obra lobatiana resultante da pesquisa de Raquel abre-se para múltiplos caminhos, como o labirinto do Minotauro. “Buscar reconstruir a Grécia de Monteiro Lobato não foi tarefa fácil. Investigando extenso acervo de fonte primária e obra vasta, tendo em vista o estudo do processo de criação, ambicionamos recompor um ‘quebra-cabeça’, do qual não temos certeza da quantidade de peças e nem sua disposição no jogo”, comenta.

Ao relacionar Grécia e Monteiro Lobato, seu resultado indicou que o gosto pela cultura clássica era muito mais antigo do que suposto inicialmente ‒ do jovem leitor ao escritor ícone da literatura infantil. O que Raquel aponta em conjunto desses diálogos é uma preocupação lobatiana de sempre aproximá-los da cultura brasileira, assim como sua dissertação também usa de estudos de outros pesquisadores e pode contribuir para novos trabalhos: “Lobato segue inesgotável”, finaliza.

 

Carnavalização literária

Certamente, uma das características da literatura lobatiana é a forma como suas histórias dialogam com outras tradições literárias. Já em Reinações de Narizinho, primeiro livro de sua coleção para crianças, o Sítio do Picapau Amarelo recebe visitas dos personagens do chamado “País das Maravilhas”. A própria Dona Benta adapta para os netos alguns clássicos como Dom QuixotePeter Pan. Com essas histórias, “os personagens do Sítio do Picapau Amarelo, de características tão ligadas à nossa cultura interiorana, tão nacionalizados, estão sempre em contato com outras culturas e com personagens de repertórios e tradições literárias diversificados”, explica Vitor Amaro Lacerda, em seu texto Monteiro Lobato e a mitologia grega, publicado na Aletria, revista de Estudos de Literatura da UFMG.

Dessa forma, a obra infantil de Lobato faz o que Lacerda chama de “carnavalização literária”, mesclando vários repertórios e atualizando narrativas e personagens de tradições diversas, com elementos que são sempre evocados para caracterizar uma literatura interessante para crianças. “Além de colocar em convivência com o conhecido núcleo do Sítio, os personagens dos contos da carochinha, das histórias clássicas da literatura europeia, do cinema norte-americano, das Mil e uma noites e do folclore nacional, a obra de Lobato acaba se apropriando da mitologia grega”, comenta o autor, citando o encontro de histórias e personagens dessa mitologia em obras como O Picapau AmareloO Minotauro Os Doze Trabalhos de Hércules.

No texto, Vitor julga esses elementos como algo importante para a educação de seus jovens leitores e indica no trabalho de Lobato uma intenção de oferecer “um exemplo histórico das possibilidades de progresso cultural nacional a partir da mitologia brasileira”. Com essa mistura, além de aprender mais sobre história e mitologia, os leitores são instigados a resolver os problemas junto das personagens, andando entre os filósofos e os artistas da Antiguidade, com os quais discutem assuntos como o conceito de arte e seus diversos movimentos, filosofia, literatura e arquitetura — tudo isso em meio a uma aventura que só os personagens mais clássicos da literatura infantojuvenil brasileira sabem viver.

Acesse a Letrinhas nas redes sociais